segunda-feira, 17 de maio de 2010

Tecnologia

A tecnologia que destrói o belo
tira do sol o amarelo
submete todo o Sul
tira do mar o seu azul
pinta de cinza a paisagem
que irriga e faz drenagem
faz voar e faz matar
faz sorrir e faz chorar
traz a fome, traz a sede
tira da mata o seu verde
vem a noite, vem a lua
tira a grama e põe a rua
polui o rio e os ares
derrete o gelo
aumenta os mares
destrói lares
trouxe a modernização
sem pensar na extinção
na destruição
na poluição
na submissão
na obrigação
na contradição.


Mariana Rosell

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bahia

Terra de amores, flores e cores
Terra de bares, mares e lares
Terra de vigários, operários e itinerários

Terra de Gil e Caetano
Terra de Gal e Bethânia
Terra de Dorival do samba

Terra de histórias
Terra de glórias
Terra de oratórias

Terra de sóis
Terra de anzóis
Terra de lençóis

Com ou sem
Todos os seus santos
Ainda mantém
Todos seus encantos

Terra verde e amarela
Terra branca e anil
Talvez seja a mais bela
Terra do nosso Brasil


Mariana Rosell

sábado, 1 de maio de 2010

Amor, sol, lençol e carinho

Hoje cheguei a sangrar por dentro
Porque me fez lembrar o ungüento
Daquela noite bordado de sol
Que observei emaranhada no lençol

Envolvida nos laços dos seus braços
Fiquei, permaneci, enterneci
Preenchi com amor todos os espaços
E com lençol e sol nos cobri

Desfeito nosso olímpico ninho
Eu parti deixando você sozinho
Embaraçado, embolado no lençol
Parti sozinha, deixei o sol

Deixei só, você no lençol
Deixei você somente com o sol
Vim só, senti saudade
De toda sua claridade

Vamos reencontrar o lençol
Trago o amor e você o sol
Em nosso ninho
Só restará amor, sol e carinho

Mariana Rosell

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tercetos de adeus

É, agora vai ser assim
Eu com você
E você sem mim

A nossa flor se perdeu
Dei ao primeiro que
Passou quando a lua acendeu

Nossa taça se quebrou
Junto com o amor
Que há tempos se acabou

Tudo o que era seu eu joguei
Pela janela do quarto
Que um dia eu usei

Você saiu pela porta
E não estranhei
A nossa história já era morta

Mesmo com o pequeno ruído
Que você fez ao ir embora
Eu sabia que você tinha saído

Melhor assim
Eu com você
E você sem mim

Do que era seu
Guardei apenas o bilhete
Que na chuva você me deu

Mesmo molhado, borrado
Sujo e rasgado
Ele sempre será guardado


Ah!esse bilhete
Representa todo o nada
Que um dia foi tudo

Tudo que agora
Está apenas no bilhete
E na sujeira embaixo do tapete

Nossa foto é com o tempo
Ele irá apagar
A lembrança do nosso momento

Joguei quase tudo fora
Arranquei até as cortinas
Que você não levou embora

Na parede aquele quadro
Está quase destruído
O vidro é todo estilhaçado

Por causa daquela flor
Toda de pedra
Que você jogou na parede

Querendo acertar o nosso amor
Você errou o alvo cego
E acertou o quadro verde

O que você pensa agora
Tanto faz
Sua opinião não mais me importa

Fizemos questão de separar
O que parecia estar unido
Mas na verdade só faltava quebrar

Os cacos da nossa união
Escondi no cofre
Nem tentei colar em vão

Nossa almofada colorida
Não está mais
Nem perfumada nem preenchida

O violão você deixou
E aqui vai ficar
Para eu lembrar do que passou

Devolve-me a flauta
Que você roubou
Ela é minha, toda minha

Na mesa do café
Ficou o guardanapo
Embrulhando a minha colher

Juro que tentei correr
Pra tentar me despedir
Mas você fez questão de se esconder

Então pegue essas palavras
Pois elas serão as últimas
Por elas vou me despedir

Tudo o que é seu está no chão
O meu novo telefone
Anotei num papel de pão

Se um dia quiser ligar
Não tenha dúvida
Ainda tenho algo a falar

Mas se acaso estiver ocupada
Não se iluda
Estarei com alguém que me faça sentir muito mais amada

Mariana Rosell

quarta-feira, 31 de março de 2010

A dor (No fundo dos olhos dele)

Ele veio como quem não sabia o que dizer, mas na verdade ele não sabia como dizer. Tocou em meus braços, segurou minha mão e acariciou meu rosto com todo amor que sentia por mim. Senti que ele queria me falar algo, mas não achava as palavras. No fundo dos olhos mais lindos que eu já vi, havia uma dor, muita dor.
Não suportando me olhar profundamente, ele se virou de lado e parou durante instantes. Ao fim de sua pausa, que para mim pareceu eterna, ele disse palavras desconexas das quais não pude extrair nenhum significado. A única coisa que conseguia observar era a dor no fundo dos olhos dele.
Eu queria ajudá-lo, penetrar na mente dele para poupá-lo do sofrimento de ter que pronunciar aquelas palavras que insistiam em não sair. Então me esforcei para decifrar os códigos da angústia que habitava e intensificava a dor no fundo dos olhos dele.
Percebia que algo o estava incomodando muito. De repente, entendi; no gesto simples e no lamento da expressão, pude compreender que aquele era o adeus. Então só conseguia ver a dor no fundo dos olhos dele.
Ao perceber que eu compreendera seus sinais, pareceu respirar aliviado por se ver livre do fardo de ter que me dizer adeus. Ele então me olhou da maneira mais profunda; a dor ainda estava no fundo dos olhos dele, mas agora esta tinha que lutar com o brilho que só aqueles olhos tinham.
Ele não disse nada, abriu a porta e saiu.

Mariana Rosell

sábado, 20 de março de 2010

Mon eau

Et il ya,
la pluie à nouveau
je me souviens de ma douleur.

Les larmes du ciel
remplacer mon
qui s'est tarie.

Les flux d'eau;
propre;
je suis à sec.

La douleur a séché.

Ma tempête intérieure
c'est l'éclair et le tonnerre,
mon nuage est un fantôme.

La solitude est ma rivière,
mon bateau a coulé
et mes saints sont sourds.

Tout est pluie
extérieur; et intérieur,
tout est pierre.

La douleur se raidit.

La douler blesse,
assombrit,
tout est sombre.

Je crie sans un bruit,
je pleure,
pas de larmes.

Vous avez quitté et a pris
ma vie, mon sourire,
mon eau.

Je suis seul.

Mariana Rosell

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sandálias

E as sandálias que calçam
Os pés anteriormente descalços
São velhas ou novas,
Tanto faz o seu olhar
Se é o seu andar que
Modifica rotas e destinos,
Traceja caminhos embalados
Pela escuridão da estrada
De terra.
Poeira no ar, vento no rosto,
Cabelos ao vento, corpo ao sol
E o traçado é o mesmo,
Em busca d’água,
Oásis de emoção.
As lágrimas rolam espontaneamente
Nem se sabe porquê,
Apenas sente-se o sal
Temperando os olhos e o suor
Transbordando pelos poros.
E mesmo quando a noite vem
Não há parada nem descanso,
Não há tempo para vida
Só a jornada existe e dribla o sono
Com o canto da alma, interior e natural
Que não passa de lamentação com melodia
Mas quase soa como uma canção de ninar!


Mariana Rosell