sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um mundo igual

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou altos ou baixos
Não existiria a delicadeza dos baixinhos
Ou a imponência dos altinhos

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou loiros ou morenos ou ruivos
Não existiria o charme dos morenos
Nem o destaque dos loiros
Nem o encanto dos ruivos

Imaginem um mundo
Em que todos fossem da praia ou do campo
Ninguém ouviria o sonoro farfalhar das árvores
Ou a calmaria das ondas do mar

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou nervosos ou calmos
Não haveria a tranqüilidade dos calmos
Ou a potência explosiva dos nervosos

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou tímidos ou atirados
Não haveria a espontaneidade dos atirados
Ou a graça dos tímidos

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou magros ou gordos
Não existiria a fofura dos gordinhos
Ou a elegância dos magrinhos

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou artistas ou platéia
Não haveria ninguém para aplaudir os espetáculos
Ou ninguém para ser aplaudido

Imaginem um mundo
Em que todos gostassem ou de prosa ou de poesia
Não existiria a emoção dos poetas
Ou a desenvoltura dos prosadores

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ou de sol ou de chuva
Ninguém gostaria do tranqüilizante barulho da chuva
Ou do calor da luz do sol

Imaginem um mundo
Em que todos fossem ditos “ normais ”
Não haveria o prazer do diferente
E que mundo sem graça seria

Imaginem um mundo
Em que não houvesse preconceitos
É, esse seria um mundo ideal


Mariana Rosell

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Soneto da espera

Hoje a noite é mais escura
Não tem sereno nem luar
Estou na porta olhando a rua
Esperando você chegar

Que tolice essa paura
Não adianta esperar
Se inicia a amargura
Sei que não vai mais voltar

Mas na porta ainda aguardo
Seu regresso a qualquer hora
Volta logo, vem depressa meu amado

Já li e reli o seu recado
Partiu depressa, sem demora
Abandonou-me desesperado


Mariana Rosell

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Joana foi pra França

Nem mar, nem maré, nem barco
Joana foi de pés descalços
Abandonou o seu mulato
E foi pra França passo a passo

Riu, chorou e mentiu
Gemeu mas não morreu
Com sol e calor consolou
E partiu só, cheia de amor

Joana foi sem nem pensar
Não parou pra pestanejar
Joana foi ao som da dança
Joana foi pra França

Não, ela não é francesa
Mas é nesta que se espelha
Quando em lágrimas goteja
Suas dores sobre a mesa

Vai Joana, vai pra França
Vai sonhar feito criança
Vai com a esperança
Vai Joana, vai pra França

E ela então me diz
Que não vai usar o giz
Vai é balançar os quadris
Para viver o sonho em Paris

Joana foi com elegância
Sem medo e sem temor
Deixou de lado seu pavor
Joana foi viver na França


Mariana Rosell

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Lua Cris

A lua cris
É aquela que sumiu
Nas sombras da escuridão
Das noites em fim

Perdeu o brilho
Não tem mais luz
Muitos a assistem
Mesmo quando não seduz

E se reduz
A mais uma sombra
Na escuridão
Das noites sem fim

De negro se veste
A lua cheia cris
Que se fez como treva
E deixou de existir

Apaga a luz
Parece ruir
Inebria a vista
Nas noites sem fim

Vai e vem a luz cris
No céu escuro
Sob os olhos amantes
Das noites sem fim


Mariana Rosell

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Texto escrito durante uma aula de dança contemporânea

Chega!Sol, passeio, descando.Paz!Alívio, atenção.Bom, mau.Bem, mal.Não sei, ou sei.Sim e não.Vem, vai.E fica.Talvez, certeza.Hipótese, confirmação.Sentido...Não!
Hoje, ontem, amanhã.Sempre, nunca!Forever, never more.Maybe.Paz de novo.Mundo.Mais um pouco de paz.Fim e começo.Meio e pós-meio.Distância x proximidade.Junto, perto mesmo longe.Aqui e lá, lá e aqui.Perto de mim.
Dançando, escrevendo, lendo e falando.Sorrindo, amando, contando e vindo.Na mente e no coração.No céu e no chão.
Amigos, amores, de perto e de longe.De verdade, na ilusão.Para sempre, por um instante, por um tempo ou nunca mais.
Pode ser que sim, pode ser que não.
Que indecisão!Hoje já não sei!
Às vezes é bom, às vezes é ruim.Só sei que é assim.Não sei se é amor, não sei se é ilusão.Talvez seja não, talvez seja sim.Só sei que é assim.
Todos os dias e nunca!


Mariana Rosell

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O seu Chico

Para e sobre Chico Buarque

Com seu canto atrapalhado
E suas palavras amorosas
E seu tom apaixonado
Fez cantar a verde-e-rosa

Fez brotar uma semente
De tanta admiração
No meu filho está presente
Ainda que só no coração

Ainda assim é muito importante
Trovador, político e cronista
Malandro e amante
Em emocionar é especialista

Em me entender
É mais do que capaz
Seja amor pra nunca esquecer
Seja apenas amor fugaz

Seja sempre meu amor
Meu deus musical
Se mantenha trovador
De sorriso angelical

De feição brava imponente
Faz mostrar seu Chico crítico
Faz pensar a minha mente
O seu Chico de político

O seu Chico cronista
Me transformará como puder
Chico é especialista
No meu lado de mulher

No meu lado de mulher
Complicado e muito errante
Canta o seu bem-me-quer
O seu Chico de amante

O seu Chico de malandro
Faz sonhar o meu pensar
Encontro em ti o meu recanto
Para cantar, dançar e amar

Para cantar a esperança
Me cantou desde menina
Me cantou quando criança
Ao cantar a bailarina

Ao cantar o seu malandro
Fez em mim o meu amor
Para sempre Chico eu canto
De você o meu amor


Mariana Rosell

domingo, 14 de junho de 2009

Espero-te no cais

Ainda te espero no cais
Só isso e nada mais
É o que desejo que saibas
Que ainda te aguardo no cais

Não me importa que partiste
Foste embora sem pensar
No que estavas a deixar
Nas cadeiras, para trás

Basta apenas que retornes
Só isso e nada mais
Saibas que estarei aqui
Aguardando-te no cais

Estou disposta a esquecer
As contendas que tivemos
Não peço nada em excesso
Saibas que no cais ainda te espero

Faço minhas tuas palavras
Sei que nada foi em vão
Nosso amor é com as ondas
Que no mar só vêm e vão

Não importa a tua demora
Para mim não é demais
Sei que não perco as horas
Que te espero aqui no cais


Mariana Rosell